4 de outubro de 2022

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Ouro é a commodity com melhor potencial hoje para operar risco geopolítico, diz gestor da Legacy

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Ao Stock Pickers, Ricardo Kazan destacou motivos para diminuir exposição ao petróleo que, segundo ele, pode ter alta desacelerada com “fator Irã”

O ouro é a melhor opção no momento para o investidor que procura se expor a commodities diante da tensão internacional entre Rússia e Ucrânia, segundo o sócio e gestor de commodities da Legacy Capital, Ricardo Kazan. “É a commodity que tem se mostrado com o melhor potencial”, destacou ele no episódio 133 do Stock Pickers de quinta-feira (17) – assista na íntegra acima. 

Com um cenário de estoques em falta em praticamente todos os tipos de commodities, um possível conflito entre russos e ucranianos deve afetar diretamente a produção e os preços de ativos diversos como petróleo, gás, ouro, paládio, entre outros. Dada a importância que a Rússia tem para essas commodities, a expectativa é de mais inflação. Sozinha, vale pontuar, a Rússia produz cerca de 10% do ouro do mundo. 

Com o conflito geopolítico, o ouro seria um “porto seguro” para os investidores. “Já estamos num cenário inflacionado por conta dos estímulos que foram feitos depois da pandemia. Mas essa crise [Rússia-Ucrânia] é muito inflacionária”, pontua o gestor da Legacy Capital.

Com essa visão, o fundo da gestora de recursos reduziu a exposição ao petróleo e, dentro das commodities, ampliou a posição em ouro. “Neste cenário geopolítico atual, não acho hoje o petróleo a melhor commodity”, afirma Kazan.

O gestor também pondera o potencial pela volatilidade. “O petróleo tem uma volatilidade muito maior do que a do ouro. Uma alta de 20% no petróleo é relevante. Para o ouro, uma alta de 5 a 10%, por sua vez, já é muito relevante, porque é uma commodity que se mexe menos”, além de contar com uma alta liquidez, respondendo por cerca de US$ 100 bilhões por dia de negociação. 

Petróleo pode chegar a “preços inimagináveis”, mas há um fator de “esperança”

Com relação ao petróleo, Kazan destaca como fatores altistas as quedas de estoques ao redor do mundo e também a influência do possível conflito no preço da commodity. Contudo, há uma esperança que paira no ar para o petróleo, ancorada em um possível acordo entre Irã e Estados Unidos, o que pode levar a uma desaceleração dos preços, o que reforça a sua exposição menor à commodity. 

Isso por conta das expectativas de que haja um acordo entre Estados Unidos e Irã, de forma a reviver o pacto nuclear iraniano de 2015. Se as negociações avançarem, seria restabelecida a reintrodução de limites às atividades atômicas do país em troca do levantamento das sanções, incluindo as exportações de petróleo. Com expectativa de mais oferta iraniana, o preço da commodity pode arrefecer.

Hoje há uma produção mundial de cerca de 100 milhões de barris por dia. O Irã, sozinho, pode colocar mais 1 milhão de barris por dia – o que já ajudaria a arrefecer o preço do petróleo e atenuar subidas aceleradas.

Ricardo Kazan destaca que a queda dos estoques de petróleo está caindo na casa de 10 milhões por semana nos EUA desde o ano passado. O Irã tem um estoque entre 50 a 80 milhões de barris.

Assim, mesmo em um cenário de conflito entre Rússia e Ucrânia, caso haja o acordo EUA-Irã, o sócio da Legacy acredita que o preço do petróleo tende a desacelerar. Porém, caso contrário, a commodity pode ser negociada a “preços inimagináveis”, segundo ele, chegando à casa dos US$ 120 ou até US$ 150 o barril. Nesta sexta-feira (18) o valor do barril tipo Brent está na casa dos US$ 93. 

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, que também participou do Stock Pickers, explica que foi negociado um acordo que permitia que esses países monitorassem o programa nuclear iraniano. Em troca, a Rússia poderia participar da economia global e os EUA reduziriam as sanções ao Irã.

Mas em 2018, os EUA saíram do acordo, que era um legado geopolítico do governo Barack Obama. Agora, o atual presidente, Joe Biden, voltou a abrir a mesa de negociação com os iranianos. Segundo Stuenkel, a negociação está indo bem, mas o novo governo do Irã é ultranacionalista, e precisa apresentar para o seu povo um possível acordo com os EUA como uma vitória.

“O cenário mais provável é um acordo, mas pode demorar algumas semanas. E se a gente tiver uma piora na crise com a Rússia, junto com a incerteza com o Irã, vai ter um impacto grande”, prevê o professor.

Diante deste cenário, como muitas commodities estão sem estoque, como o petróleo, e há demanda crescente, Kazan diz que pode haver reflexos em vários ativos, como petróleo, minério, gás, alumínio e cobre.

Possível guerra Rússia-Ucrânia pode trazer impactos para o Brasil

Com relação à tensão Rússia-Ucrânia, apesar da retirada de tropas russas da região da Crimeia na última quarta-feira (16), o clima negativo está longe do fim, na visão de Stuenkel. Segundo ele, não há solução permanente e o mercado deve ficar de olho. 

Ele vê três cenários que podem ocorrer no conflito entre Rússia-Ucrânia. Segundo o professor, o presidente russo Vladimir Putin deve apresentar alguma vitória ao eleitorado após a retirada das tropas da região ucraniana. Para isso, ele crê que pode haver uma invasão russa de territórios ucranianos já ocupados por rebeldes pró-Rússia. “Esse é o cenário que a gente considera mais provável. Por que isso seria uma vitória política para ele (Putin), mas a Otan não estaria na resposta, pois a Ucrânia já não controlava a região”, destaca.

Outros dois cenários, mais improváveis, consistem em conflitos bélicos maiores. O primeiro é uma invasão russa em metade da Ucrânia. Ou ainda a invasão completa do território. “Considero este pouco provável, porque as grandes potências têm péssimas experiências com ocupações”, destaca. Porém, caso isso ocorra, abre-se caminho para outro problema: uma onda de refugiados. Segundo Oliver Stuenkel, a guerra poderia levar de 1 a 5 milhões de ucranianos a deixarem o país rumo à Polônia e à Alemanha.

Para o Brasil, ele destaca que o país sofreria, assim como o restante do mundo, com o aumento global do preço da energia. A guerra seria “boa” para países que exportam energia, como a Rússia.

“A hipótese é de que isso sirva para elevar a inflação. Há um medo grande, por que com potências nucleares envolvidas, você tem impactos em todas as áreas. O custo da energia acaba impactando tudo. A Rússia e a Ucrânia são grandes exportadores de petróleo, gás, alumínio, fertilizantes e trigo. Isso tende a causar uma situação macroeconômica bastante complicada para o Brasil”, pontua o professor.

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